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DVD: “Monstros” (Freaks, 1932)

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[Por Osvaldo Neto]

Uma obra cinematográfica cuja existência continua a ser cercada de polêmicas mesmo passados 85 anos do seu lançamento. Também não é exagero afirmar que ela continua a ser incompreendida por muitos que a assistem. Esse filme em questão se chama “Monstros” (Freaks, 1932).

O clássico seminal de Tod Browning ganhou um caprichado DVD pela Obras-Primas do Cinema. Nesses poucos meses de 2017, a distribuidora também lançou uma edição para colecionador de “Sangue de Pantera” (clique para ler a nossa resenha) e recentemente anunciou o lançamento de “Fausto” e “O Gabinete do Dr. Caligari” em versões restauradas na caixa “Expressionismo Alemão” que estará a venda nas lojas a partir de Maio.

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Browning vinha do grande êxito do lançamento de “Drácula” 1 ano antes, o filme que transformaria Bela Lugosi em um astro do horror da noite para o dia e do drama esportivo “Por uma Mulher” (Iron Man, 1931) com Lew Ayres e Jean Harlow, ambos para a Universal. Através desses feitos e o sucesso de suas parcerias anteriores com Lon Chaney (interrompidas devido ao falecimento do ator aos 47 anos em 1930), o diretor ganhou passe livre para fazer o que desejasse em seu próximo filme de horror para um grande estúdio que viria a ser nada mais nada menos que a MGM. Os executivos não faziam a menor idéia da batata quente que eles teriam em mãos no momento em que “Monstros” começou a ser filmado.

Credita-se a Harry Earles, que interpreta o protagonista Hans, como a pessoa que trouxe ao diretor o conto “Spurs” de Tod Robbins que originaria o roteiro final deste longa. Earles também trabalhou com Browning anteriormente em “A Trindade Maldita” (The Unholy Three, 1925), baseado em um livro do mesmo escritor, onde Chaney faz um ventríloquo e líder do trio de criminosos do título.

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Existem dois fatos determinantes para que o filme tenha saído do papel e seja a obra reconhecida que ela é hoje:

01 – Tod Browning saiu de casa ainda muito jovem para ser artista circense e trabalhou, inclusive, em ‘sideshows’ onde essas pessoas com deformidades e deficiências físicas e mentais – muitas delas realizando proezas inacreditáveis para o espectador ‘normal’ – eram as atrações principais. Assim como “O Monstro do Circo” (The Unknown, 1927), “Monstros” se revela um filme extremamente pessoal para o seu autor.

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02 – Hollywood ainda não havia aderido ao Código Hayes. Todos os filmes lançados antes do código são conhecidos como pertecentes ao período ‘Pre-Code‘. Os estúdios chutaram o balde com a chegada do cinema falado em busca de mais e mais bilheteria. Não era raro ver cenas envolvendo uso de drogas ilegais, insinuações de sexo, gângsters sendo metralhados pela polícia e gangues rivais, prostituição, aborto, infidelidade matrimonial, personagens claramente homossexuais e outras coisitas mais. Com a chegada do Código, o cinema Hollywoodiano também perdeu um protagonismo feminino evidente em muitos longas do período que apenas seria recuperado décadas depois.

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Cleopatra (Olga Baclanova, inesquecível) e Hercules (o ator inglês Henry Victor)

Apesar de parecer um exploitation aos olhos de quem nunca o assistiu, o filme passa bem longe desse aspecto sendo uma das obras mais ricas e humanas lançadas na história do cinema norte-americano. Os verdadeiros ‘freaks’ da história são Cleopatra e Hercules, pessoas que podem não ser ‘feias’ e nem possuir qualquer deficiência física mas são monstros movidos pela ganância e maldade. Mas como não poderia deixar de ser, a campanha de propaganda para o lançamento de “Monstros” é sensacionalista ao extremo e o público facilmente impressionável da época pode ter caído nessa. Não adiantou em nada terem feito exibições-teste que resultaram em um novo prólogo e final além de cortes severos no filme que originalmente possuía 1h30mins e ficou com pouco mais de 60mins. Infelizmente, todas essas cenas deletadas foram perdidas.

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O fracasso retumbante de bilheteria, aliado a controvérsia, fez com que a carreira de Tod Browning quase chegasse ao fim. O diretor apenas dirigiu mais três longas, onde se destacam dois estrelados por Lionel Barrymore: “A Marca do Vampiro” (1935), refilmagem falada do hoje perdido “London After Midnight” (1927) em que novamente trabalhou com Lugosi e o muito subestimado “A Boneca do Diabo” (1936). “Monstros” apenas viria a ganhar um verdadeiro reconhecimento a partir dos anos 60, graças ao movimento da contracultura que o fez ser visto com olhos bem diferentes do público de mais de três décadas atrás.

O impacto do longa em nossa sociedade e na cultura continua inegável. Um dos segmentos da antologia “Do Sussurro ao Grito” (The Offspring, 1987) de Jeff Burr e estrelada por Vincent Price é uma homenagem escancarada a esse clássico de Tod Browning, a começar pela escalação de Angelo Rossitto (o anão Angeleno) em seu último trabalho para o cinema. Curioso pensar que Angelo foi o que mais viveu de todo o elenco e ainda teve uma surpreendente carreira para um ator de sua pequena estatura.

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A Edição Definitiva em DVD da Obras-Primas do Cinema possui como extras um excelente documentário de 1h com pesquisadores e artistas circenses falando da natureza dos ‘sideshows’ e do quanto essas atrações e turnês possibilitaram uma vida decente e trabalho para essas pessoas ‘diferentes’, sobre a importância do filme e todo o seu elenco. Incluídos também estão um especial sobre os finais alternativos e o prólogo típico das produções do período onde se tentava preparar o público para o que eles iriam assistir. Altamente recomendado.

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RESENHA: Rabid (2019)

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Rabid

Quando saiu a notícia que iria rolar um remake de RABID, clássico de ninguém menos que David Cronenberg – filme que aqui no Brasil saiu com o título infame de “ENRAIVECIDA NA FÚRIA DO SEXO” – eu fiquei num misto de curiosidade e medo do que viria. Mas aí vi que essa empreitada seria realizada pelas Irmãs Soska e fiquei bem animado, pois as gêmeas diretoras tem uns filmes cabulosos no currículo.

Nesta nova versão, dirigida por Jen e Sylvia Soska, a partir do roteiro de John Serge no qual elas também assinam, acompanhamos Rose, uma design de moda que se envolve em um acidente e fica com o rosto desfigurado. Sem esperanças de recuperar a aparência e voltar ao mundo da moda, resolve se inscrever numa clínica de estética adepta de um movimento chamado “TRANS-HU-MA-NI-SMO” que não é aceito pela comunidade médica. Como voluntária, acaba se submetendo ao procedimento milagroso que restaura toda estrutura do seu rosto. Não bastasse a aparência, a moça passa a se sentir melhor em todos os sentidos. Mas não demoram a surgir os efeitos colaterais… e eles são pra lá de sinistros.

Em nenhum momento as diretoras escondem sua admiração por Cronenberg. Há referências frequentes de sua obra durante o longa, sendo que uma em especial acaba se destacando de tão gritante que é. E é claro que o sadismo aqui impera, marca registrada das gêmeas cineastas em seus longas anteriores – vide “T IS FOR TORTURE PORN” e “AMERICAN MARY“. E assim como o diretor canadense, as irmãs também são chegadas a um body horror raiz. Aqui, usam e abusam de efeitos práticos pra nos conferir muita nojeira e bizarrice. Em uma cena temos uma “cobra” e uma axila… Bem, basta dizer que esta cena dificilmente será esquecida, por exemplo.

Apesar de seguir a mesma premissa do “RABID” original, este remake tem suas diferenças – o que já é esperado – e a mais importante é a forma com que Rose, vivida por Laura Vandervoort (Biten), é construída. Ao contrário do original, nossa protagonista não passa o filme todo assistindo impassiva às transformações que seu corpo e mente sofrem. Aqui, nossa heroína evolui dentro da trama, passando a ter domínio de suas ações, dando força e profundidade à personagem.

O ponto forte aqui tá no desenvolvimento da personagem principal, como já mencionado, e na violência extremamente gráfica toda artesanal, que garante uma seboseira danada com muito sangue em tela. Infelizmente, a maquiagem dá uns vacilos como na deformidade do rosto da protagonista, o que as vezes fica bem fake. Há também umas cenas toscas aqui e ali, mas os pontos fracos mesmos estão mais em alguns personagens que poderiam simplesmente nem existir, tipo o boyzinho que fica enchendo o saco da moça o filme todo.

Esta nova versão de “RABID” peca por tentar acrescentar mais elementos à trama do que ele precisaria de fato, mas nada que estrague a sua experiência. No fim das contas, o remake das Irmãs Soska agrada e acaba fazendo “bonito”. Pena que esta refilmagem passou meio batida pelo público do gênero e pouco se falou a respeito. Quem ainda tá torcendo o nariz e ainda não viu, tá vacilando.

Escala de tocância de terror:

Direção: Jen e Sylvia Soska
Roteiro: John Serge e Irmãs Soska
Elenco: Laura Vandervoort, Benjamin Hollingsworth, Ted Atherton
Ano de lançamento: 2019

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RESENHA: O Último Suspiro (2018)

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 Último Suspiro

Certos filmes passaram a ter um novo significado a partir deste estado de quarentena e devido a pandemia que enfrentamos. Um dos que se enquadram neste aspecto e que merecem um olhar até “visionário” é a produção francesa “O Último Suspiro” (Dans La Brume) que está disponível no catálogo de streaming do Looke em um oferecimento do Festival Varilux em Casa.

Bem, o que um filme produzido e lançado em 2018 tem a ver com o momento atual? Acompanhe comigo… Um típico casal parisiense (Romain Duris e Olga Kurylenko) cuida de uma filha com uma rara síndrome que a mantém isolada do mundo exterior em uma espécie de bolha hi-tech que abriga praticamente um quarto ali dentro. Em um dia como outro qualquer, ocorre um súbito terremoto na cidade e uma densa névoa começa a invadir as ruas e sufocar as pessoas.

Sem perder muito tempo com explicações sobre e como a névoa age, o filme parte para enfocar o drama da supracitada família que se vê pedindo abrigo aos idosos que moram no último andar de seu condomínio de pouco mais de cinco andares. E como a névoa não aparenta se dissipar facilmente, as pessoas tem que se proteger de sua chegada iminente tentando obter máscaras, tubos de oxigênio e prender a respiração para não inalar os gases tóxicos.

Assim como ocorre com vários filmes de zumbi e outros em cenários apocalípticos, diversos contratempos obrigam os personagens sobreviventes a saírem de seu refúgio para encarar as ruas. E é nas ruas, em meio a pilhas de cadáveres e ameaças repentinas que cada um parte para tomar decisões que nem sempre são as mais apropriadas.

Diferente da estética americana, onde já veríamos inserts de pessoas morrendo em alta velocidade, uma edição frenética de gente correndo e uma trilha sonora irritante, aqui tudo é conduzido de maneira mais fria e climática. O ritmo não chega a ser lento e entediante como acontece em outras produções europeias. Quanto a isso, “O Último Suspiro” consegue ter seu próprio tempo no reconhecimento da situação tenebrosa e ter uma duração que não extrapola nossa paciência.

Se o uso de um inimigo não-humano lembra algo de Stephen King como já vimos em “O Nevoeiro“, por outro lado a realidade nos faz ver paralelos inevitáveis com a Covid-19 por conta das mortes através da complicação das vias respiratórias em ambientes que até então seriam seguros. Como toda boa ficção científica moderna, o cenário desolador e os desfechos pessimistas de “O Último Suspiro” ajudam a trazer algo diferente nessa modinha de filme catastrófico amparado por efeitos especiais.

Escala de tocância de terror:

Título original: Dans la brume
País de origem: França
Diretor: Daniel Roby
Roteiro: Guillaume Lemans, Jimmy Bemon e Mathieu Delozier
Elenco: Romain Duris, Olga Kurylenko, Fantine Harduin

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RESENHA: Fortuna Maldita (2018)

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Fortuna Maldita

A Netflix lança tanta coisa, que em muitos casos é dificil de acompanhar o que é realmente relevante no catálogo. Neste caso em específico, demorei mais de um ano para poder conferir “Fortuna Maldita” (May the Devil Take You / Sebelum Iblis Menjemput), produção da Indonésia que aparentemente prometia ser bem divertida. Me disseram que o filme se inspirava em obras que gosto muito como “Night of the Demons” e “The Evil Dead” e por isso mesmo fiquei receoso de conferir. (mais…)

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