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RESENHA: O Farol (2019)

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[Por Rodrigo Rigaud]*
Após A Bruxa, difícil resistir a lançar holofotes sobre o novo longa de Robert Eggers – ainda o segundo de sua carreira. Para quem mergulhou no universo de isolamento, fanatismo, loucura e fantasia – um horror, de fato – de seu filme debut, O Farol (The Lighthouse) poderá soar como um naufrágio na potência de seu cinema.

O mar, inclusive, é o que engole os dois protagonistas da produção, interpretados por Willem Dafoe e Robert Pattinson. O primeiro faz um faroleiro experiente e o segundo seu mais novo ajudante, que juntos terão que passar quatro semanas isolados numa ilha da Nova Inglaterra alimentando o funcionamento de um farol e fazendo sua manutenção. Mas, como já avisam os primeiros e naturalmente amedrontadores quadros do filme, sob a bela fotografia em preto e branco e a projeção no claustrofóbico formato 1.19:1, há algo de alarmante naquele espaço.

De pronto, o farol apresentado e seu ruído ensurdecedor ditam a dinâmica inicial dos dois personagens, suas características e a hierarquia a ser seguida no local. A crueza eleva as performances de Dafoe e Pattinson. Eggers busca em registros reais e lendas, orais ou escritas, de faroleiros e marinheiros de épocas distintas, frases e diálogos os quais vezes transcreve literalmente no filme.


A dupla é dirigida sob um olhar que parece querer deles, exatamente, a máxima visceralidade do que pode vir a ser aqueles personagens. Ali, sob o isolamento acachapante, a força de um farol que sugere trevas e luz, e o peso do que cada um destes carrega em si – do que fizeram ou não em seu passado – os dois se inflamam em cena. Dafoe é histeria e virulência de antemão posta pra fora, enquanto Pattinson é tudo isso, porém voluntariamente reprimido, como uma bomba, que ao se cortar o fio errado, explode.
Enquanto O Farol desnovela sua narrativa por uma crescente de mistérios, que referenciam figuras mitológicas do mar como sereias, tritões, Netuno e até singelas inspirações no Cthulhu, a montagem brinca com a percepção de tempo do espectador, fazendo com que grandes intervalos se diluam em poucos minutos e poucos minutos, ou a passagem de poucas horas na trama, sejam momentos grandiosos de revelações que sugerem um entendimento daqueles personagens.
Inserts, flashbacks, visões distorcidas, ou não, do real, confusão e loucura se misturam na trama. Assim pode o cinema e o horror. Assim é a relação entre dois homens, isolados, maculados e sob influência do álcool, do desejo, da insanidade e do ademais. Confusão e loucura porque sim!


O trabalho de Eggers e seu diretor de fotografia, Jarin Blaschke (o mesmo de A Bruxa), todavia, está longe de ser confuso ou louco. É, por outro lado, de um preciosismo que respira a proeza de outra parceria virtuosa como Bergman e Gunnar Fischer, quanto a beleza da composição dos quadros e a perseguição da expressividade de seus personagens. Filmado todo em 35 mm e com câmeras utilizadas entre os anos 1920 e 1940, O Farol privilegia planos fechados, rostos, bocas e olhos ocupando toda a tela. Ademais, aqui a fotografia do filme assume seu papel de ajudar a contar a história – dando a ela ares ainda mais assustadores e surreais, enquanto em alguns momentos lembra um filme expressionista alemão.
Independente de que se goste ou não do visto, certamente o longa produzido pela RT Features e A24 é daqueles que permanece aceso após a sessão, pois sua história acaba em tela, mas não se encerra nas mentes, mesmo que haja, sim, um desfecho por assim dizer. O todo nos trai por fazer acreditar e desacreditar de si todo tempo. A ser precavido, ao menos vale crer no conselho: nunca mexa com as criaturas do mar.

Escala de tocância de terror:

Título original: The Lighthouse
Direção: Robert Eggers
Roteiro: Max Eggers e Robert Eggers
Elenco: Willem Dafoe, Robert Pattinson, Valeriia Karaman
Ano de lançamento: 2019

* Especial para o Toca o Terror – Filme visto na abertura do XII Janela Internacional de Cinema do Recife

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  1. Pingback: RÁDIO - PROGRAMA: Isolamento social (2020) | Toca o Terror

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RESENHA: A Cor Que Caiu do Espaço (2020)

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A cor que caiu do espaço

H.P Lovecraft voltou a ficar em evidência, seja em games como “Call of Cthulhu” (2018) e “The Sinking City” (2019) como em adaptações cinematográficas. Só neste ano de 2020 já tivemos duas obras inspiradas no autor, tendo elementos e personagens de suas obras em “Ameaça Profunda” e agora “A Cor Que Caiu do Espaço” (Color Out of Space), uma adaptação direta de um dos seus celebres contos e o motivo desse texto existir. (mais…)

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GAME: Blair Witch (2019)

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Blair Witch

Mais de 20 anos e “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project) continua relevante e presente em nossa memória influenciando ainda a indústria cinematográfica e chegando em outras mídias como os games. E em 2019, exatamente duas décadas depois do lançamento do filme original, a E3 anunciava um novo game da franquia feita pelo estudio Blooper Team, responsavel pelo elogiado Layers of Fear.

Então, a pergunta que não quer calar pra você que se interessou e ainda não jogou é… presta? Ou seria algo esquecível como as sequências e o reboot da tela grande? O estúdio sabia da responsabilidade e do peso em levar uma marca famosa de volta ao mundo dos games e utilizou o aprendizado do jogo anterior para aprimorar a experiência. Aqui novamente temos uma câmera em primeira pessoa para causar mais imersão.

Vamos lá… A trama de Blair Witch se passa no ano de 1996, bem na época em que o evento do longa original se passa. Ocorre um novo sumiço na floresta. Dessa vez é de uma criança. O caso mobiliza a força policial e a população pela busca do garoto. No game, você assume o comando de um policial local que tem um passado bem traumático e que junto com seu cachorro segue sozinho em busca do que realmente aconteceu no local. O cachorro não é mero figurante e te auxilia nas buscas encontrando caminhos, itens ou detectando inimigos.

O jogador tem acesso a walkie talkies, celulares (daquele tipo tijolão), uma bolsa que guarda itens e colecionáveis (que são muitos), lanterna e claro, uma famosa handcam que tem a utilidade de visão noturna e que também roda fitas que se encontram no caminho e que ajudam no andamento da campanha. E é claro que logo encontrará os horrores que a famosa vilã colocará no caminho.

Sua arma é a lanterna, que além de auxiliar em lugares extremamente escuros, mata as criaturas das trevas quando as ilumina. O foco do game não é o combate e sim a exploração e resolução de puzzles. Ainda assim, em determinados momentos a luta se faz necessária. A trama em si é boa, mas poderia ser melhor. Ainda assim é bem mais desenvolvida que os filmes que vieram.

A duração do jogo depende do jogador. Eu, por exemplo, num primeiro gameplay levei 7 horas para zerar, mas da segunda vez em diante levei cerca de 3 horas. E graficamente falando é um jogo bonito até, mas não espere algo maravilhoso.

O fator replay se faz presente na forma de dois finais sendo um bom e outro ruim, além dos já citados colecionáveis que fornecem informações complementares. Blair Witch tem uma pegada mais psicólogica, porém sabe assustar em alguns momentos, seja nos bem dosados momentos de jumpscare ou na ambientação sinistra. Este gameé uma viagem de horror que honra o legado do filme original.

Escala de tocância de terror:

P.S.: Existem algumas referências a obra original, mas não entrei em detalhes por conta de spoilers.

Blair Witch esta disponivel para PC, Xbox One, Xbox series (via retrocompatibilidade), Ps4, Ps5 (via retrocompatibilidade) e Nintendo Switch.

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RESENHA: O Garoto Sombrio (2015)

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[Por Geraldo de Fraga]

Em 2011, o diretor Craig William Macneill e o escritor Clay McLeod Chapman se uniram para realizar o curta Henley, que mostrou a infância do serial killer Ted Henley e o início da sua trajetória macabra. Esse ano, os dois retomam a parceria para um projeto bem mais ambicioso: contar toda a história desse psicopata, não em um, mas em três longas.

A primeira parte da trilogia se chama The Boy e é focada nos primeiros anos de vida do futuro assassino. A história começa em 1989, com Ted Henley (Jared Breeze), então com nove anos, vivendo com seu pai, John (David Morse), num motel de beira de estrada que se encontra às moscas. O dia a dia do menino é entediante: quando não está limpando o local, brinca sozinho e procura animais mortos na rodovia.

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Essa rotina é quebrada quando um acidente na rodovia leva o estranho William Colby (Rainn Wilson, irreconhecível num papel dramático) a se hospedar em um dos quartos. Diferente dos outros hóspedes que já passaram pelo motel, Colby esconde alguns segredos e isso atiça a imaginação de Henley, a ponto de deixar fluir sua personalidade doentia.

Um ponto positivo de The Boy é que, ao contrário de vários outros filmes de psicopata, o protagonista aqui não se transforma no vilão por causa de um trauma ou de uma situação extrema. A maldade está nele desde sempre, esperando apenas uma brecha para vir à tona. A vontade de matar é acentuada pelo tédio e pela falta de perspectiva. Não há um julgamento moral de certo ou errado e, para o garoto, tudo é só mais um passatempo.

A negligência por parte do pai alcoólatra conta como o maior ponto para o estopim. É ele quem prende o garoto naquele ambiente hostil, o que já seria nocivo para uma criança normal. Seu estado de negação e inércia, apenas retarda o inevitável. “Esse menino tem olhos crescendo na nuca”, desabafa a Colby, em certo momento do filme, lamentando em ter razão.

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Sobre a construção do longa, a direção de Macneill é segura e consegue grandes atuações do trio de protagonistas. Jared Breeze tem tudo para ser lembrado como um dos melhores garotos problemas dos últimos anos, enquanto Morse e Wilson cumprem seus papéis com louvor. O roteiro de Chapman é afiado, com diálogos curtos, mas eficazes. Além de focar em pequenos detalhes para fazer a trama fluir. O ritmo, por muitas vezes lento, é essencial para a construção do clímax.

The Boy é um filme realista e sóbrio, esqueça todo o exagero de filmes sobre psicopatas mirins como O Anjo Malvado ou A Orfã, por exemplo. Além disso, essa primeira parte da trilogia nos brinda com um ótimo gancho para o segundo filme e já nos deixa sabendo do que Ted Henley é capaz de aprontar. E vale muito a pena acompanhá-lo em sua próxima jornada.

Escala de tocância de terror:

Nome original: The Boy
Direção: Craig William Macneill
Roteiro: Craig William Macneill e Clay McLeod Chapman
Elenco: Jared Breeze, David Morse e Rainn Wilson
Origem: EUA

Trailer

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