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RESENHA: O Bar Luva Dourada (2019)

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Bar Luva Dourada

[Por Frederico de Oliveira Toscano]*

O Bar Luva Dourada (Der goldene Handschuh, 2019) não é um filme de terror convencional, se é que se pode mesmo chamar de terror. Tampouco é um suspense padrão, embora trate de uma série de assassinatos cometidos na Alemanha durante a década de 1970. Não há uma investigação tensa que leva à prisão do criminoso, nem um jogo de gato e rato entre duas mentes brilhantes, ainda que em lados opostos da lei. Também não existem correrias, tiroteios, perseguições ou qualquer coisa do tipo. Talvez mais importante, as mortes não são fetichizadas, tratadas como o resultado da genialidade perversa de um louco. Há muito pouco de Hollywood e bastante de vida real aqui, e este é o trunfo maior da história.

O filme trata dos crimes reais de Fritz Honka (vivido pelo galã Jonas Dassler, de apenas 23 anos, desaparecido dentro do personagem), um homem frustrado com a própria vida e a feiura que nela enxergava, inclusive no espelho. Encurvado, estrábico, cabelos rareando, dentes tortos e podres e um nariz deformado, Honka era rejeitado até mesmo pelas mulheres que frequentavam o Bar Luva Dourada, o tal bar do título. É lá que se reúne uma fauna de figuras patéticas não apenas da noite de Hamburgo, mas do dia também. Quando um dos personagens questiona o porquê de as cortinas estarem sempre fechadas lá, o dono do estabelecimento explica que “quando as pessoas enxergam a luz do sol, elas param de beber”.

Beber – e fumar – é o que essas almas perdidas mais fazem, de manhã até escurecer, esparramadas sobre mesas e balcões decorados por cinzeiros abarrotados. Espécie de farol para os desvalidos, o bar reúne homens e mulheres que lá permanecem por horas a fio, não por uma verdadeira afeição ao lugar e aos outros frequentadores, mas por não terem mais para onde ir. Alguns literalmente – pobres, alcóolatras, expulsos de casa pela família farta -, outros por não se encaixarem mais na vida lá fora. O Luva Dourada era ainda um ajuntamento de veteranos e vítimas da II Guerra Mundial. Gente que passou por horrores inimagináveis e perdeu a capacidade de funcionar em sociedade, buscando esquecimento no fundo da garrafa.

É aí que Honka encontra suas vítimas: mulheres idosas e desesperadas, que ele atrai ao seu apartamento imundo, com a promessa de mais álcool. Lá, são humilhadas, espancadas, ameaçadas, abusadas e, quase sempre, mortas. Esquartejadas, seus pedaços são escondidos e vão apodrecendo ao longo de anos. Os que procuram mortes ritualizadas e estilizadas vão se frustrar. Os assassinatos são menos planejados e mais espontâneos, explosões de ódio quando Honka se vê confrontado pela realidade ao seu redor, refletida nas mulheres que leva ao seu apartamento. É nelas que ele enxerga o horror de sua aparência e a decadência de sua vida. Ao matá-las, está matando a si mesmo, escolhendo vítimas que sabe que ninguém dará pela falta.

Uma subtrama envolvendo uma colegial estilo Lolita e seu amigo desengonçado não chegam a acrescentar muita coisa, e O Bar Luva Dourada está no seu melhor quando segue o protagonista, mostrando em detalhes a sua vida arruinada. As fotos exibidas nos créditos finais deixam claro o espetacular trabalho da produção ao recriar o apartamento do assassino e o bar, além da caracterização dos atores. Essa aproximação com a realidade é, talvez, o que mais incomoda no filme, no bom sentido.

Todo mundo tem um – ou mais de um – Bar Luva Dourada em sua cidade. Talvez até já tenha frequentado ou ainda frequente. E ao fazê-lo, acaba juntando-se a esse extrato mais degradado da sociedade, que escapa pelas frestas escuras e é esquecido, até que os jornais anunciem a tragédia e o horror invada a sala de estar. Isso sim, é que é assustador.

Escala de tocância de terror:

Direção: Fatih Akin
Roteiro: Fatih Akin (baseado no livro de Heinz Strunk)
Elenco: Jonas Dassler, Margarete Tiesel e Marc Hosemann
Origem: Alemanha
Ano de lançamento: 2019

* Especial para o Toca o Terror
** Filme assistido a convite da distribuidora Imovision

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RESENHA: As Faces do Demônio (2020)

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As Faces do Demônio

Pouco se vê do cinema sul-coreano nas salas multiplex do país. E de terror então, nem se fala! “AS FACES DO DEMÔNIO” (Byeonshin 변신), que entraria em cartaz em março deste ano se não fosse a pandemia da COVID-19, estreia agora nos cinemas. A insistência em não lançar o filme em VOD e streaming apesar da quarentena talvez seja sinal de uma abertura maior para produções de gênero da Ásia nas salas comerciais depois que “PARASITA” fez a festa no Oscar.

Este novo longa coreano já começa com os dois pés nas caixas do peito do espectador com um exorcismo pra lá de escatológico que acaba em tragédia, servindo pra nos apresentar os personagens principais: o padre e o demonho. Sequência nada sutil com vômito de sangue, muita ferida e nojeira. A cena é tão surtada que lembra clássicos como “A MORTE DO DEMÔNIO” de Sam Raimi. Mas quando somos apresentados a família que vai sofrer com o malassombro, logo o tom muda radicalmente, entrando num ritmo mais calmo como é de se esperar das produções asiáticas, porém com certa agilidade atípica.

A trama de “AS FACES DO DEMÔNIO” é muito boa, mas infelizmente sua sinopse e trailers entregam muitos spoilers. Eu sei que é difícil, mas se puder, evite-os. A direção de Hong-seon Kim é segura e nos traz uma situação cabulosa atrás da outra. Incrível como o cinema sul-coreano consegue entregar momentos brutos e ternos dentro de uma mesma situação, por mais desconfortável que seja. Pra não estragar, vou evitar descrever o desenrolar dos eventos, mas dá pra dizer que o clima de paranoia, ao bom estilo O ENIGMA DE OUTRO MUNDO do mestre carpinteiro, é muito bem construído e acaba sendo a base que sustenta toda trama. Porém, o diretor perde a mão quando tenta “enfeitar” alguns momentos que poderiam ser mais contidos.

O que chama atenção logo de cara, é a fotografia cristalina e com uma paleta de cor de fortes contrastes entre azul e laranja, típica do cinema mainstream de hollywood predominante, deixando claro que a produção foi feita pra o mercado internacional. Isso é ruim? Seria se fosse mal feito, o que não é o caso. Outra coisa que salta os olhos, é o trabalho de maquiagem artesanal, tanto do possuído como dos cadáveres que podem causar certa repulsa. O que incomoda mesmo é o mal uso de CGI em situações que não precisariam. Não é nem uma questão de purismo, é porque ficaram mal feitas mesmo.

Talvez, o problema aqui é que, para além da estética nitidamente feita pra o público internacional, temos excessos tipicamente hollywoodianos que vão agradar o público em geral, mas podem incomodar os apreciadores do horror asiático mais contido. É sério! Tem hora que a pessoa pergunta pra tela: “PRA QUÊ TUDO ISSO?”. Mas a situação principal concebida é tão intrigante que dá pra relevar esses “exageros ocidentalizados” e ficar tenso do mesmo jeito.

No geral, AS FACES DO DEMÔNIO é um bom filme não só pela narrativa equilibrada e aspectos técnicos, mas pela forma nada convencional de como é tratado o lance de possessão, tema tão mal explorado no cinema de horror nos últimos anos.

NOTA: É bom lembrar que ainda estamos em plena pandemia. Então, se for arriscar, ao menos respeite os protocolos de segurança.

Escala de tocância de terror:

Título original: Byeonshin
Direção: Hong-seon Kim
Roteiro: Kim Hyang-ji
Elenco: Sung-Woo Bae, Dong-il Sung, Young-nam Jang
Origem: Coréia do Sul

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RESENHA: Invasão Zumbi 2 – Península (2020)

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Peninsula

Esqueça o que você viu e gostou em “Invasão Zumbi” (Train to Busan). “Invasão Zumbi 2: Península” (Train to Busan 2: Peninsula) consegue ser tão genérico e pouco original que se não fosse da mesma franquia nem valeria a pena a conferida. Aliás, a ligação entre os dois filmes se dá apenas pela breve introdução em que falam que uma epidemia se espalhou por toda a Coreia do Sul e em pouco tempo o país ficou em lockdown total.

Neste começo até temos uma palhinha do que o filme poderia ser se não tivessem se perdido na megalomania. A cena no caso se passa em um navio de refugiados até o Japão onde um infectado faz mais estrago do que o exército que comanda a embarcação podia imaginar. Mas fica só nisso.

De resto, temos um salto de quatro anos onde mercenários em Hong Kong se especializam em saquear o que restou da Coreia do Sul enviando “mulas” em missões específicas. Aí é quando vemos que “Peninsula” vira um daqueles filmes pós-apocalípticos sem graça com direito a aqueles clichês que já vimos em “Resident Evil“, “Terra dos Mortos” e “The Walking Dead” com refugiados em bunkers contra zumbis que perambulam entre os escombros das cidades.

Se no primeiro filme desta franquia coreana tivemos como um dos pontos cruciais da trama um emocionante desfecho trágico em família, este longa utiliza-se disso como uma muleta para causar empatia com um núcleo de personagens. E falha miseravelmente. A mãe durona que tenta criar suas crianças com o pai/avô está longe de chamar atenção ou emocionar a quem já imagina que o destino deles não será dos mais felizes.

Tirando o aspecto tiro/porrada/bomba nos confrontos com os zumbis, os efeitos digitais deixam muito a desejar. As perseguições com carros atropelando zumbis lembram “Mad Max: Estrada da Fúria” num centro urbano mas com um CGI tão mal construído que parecem extraídos de “Guerra Mundial Z“, onde os mortos-vivos morrem igual a baratas e são vistos rapidamente em frações de segundos.

Considerando o sucesso mundial do primeiro filme, os produtores quiseram agora faturar alto com um orçamento bem maior e algumas concessões criativas transformando o longa em um tipo de filme de ação/aventura que por um acaso tem essas criaturas tão populares no universo do horror. A preocupação em atrair um público maior foi tanta que praticamente eliminaram a carnificina típica de um ataque zumbi para deixar as mortes dos vivos em off-screen.

Diante de tudo isso, não procure ter muitas expectativas ao assistir “Peninsula“. Claro que dependendo do seu grau de exigência, o filme possa ser um bom passatempo. O problema é que não se torna nada mais além disso, tornando-se aquele produto tipicamente enlatado que não precisaria ser revisto depois.

Escala de tocância de terror:

Diretor: Sang-ho Yeon
Roteiro: Sang-ho Yeon, Ryu Yong-jae
Elenco: Dong-won Gang, Jung-hyun Lee, Re Lee
País de origem: Coreia do Sul
Ano de lançamento: 2020

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RESENHA: Mandy (2018)

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Mandy

Confesso que fiquei satisfeito com o cinema de horror no ano de 2018. Já tinha minha listinha de melhores do ano fácil, algo que não acontecia há pelo menos uns dois anos. Mas aí, aos 45 do segundo tempo, me aparece MANDY, um filme de vingança estrelado por Nicolas Cage. Relutei, mas acabei assistindo e pasmem: É MASSA! (mais…)

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