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RESENHA 2: Fragmentado (2017)

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Split-Poster

[Por Gabriela Alcântara]

A mente humana, com todas as suas possibilidades e poderes, vem sendo tema de filmes ao longo de toda a história do cinema. Desde filmes dramáticos/românticos, como Brilho Eterno de uma mente sem lembranças, passando por bons suspenses como Cidade dos Sonhos e ficções científicas, como o não tão bom Lucy. Entre os distúrbios mais interessantes para a construção de uma boa história está o transtorno dissociativo de identidade, popularmente conhecido como múltipla personalidade. É o que acontece quando a identidade é violenta? Quantas identidades uma pessoa afligida por esta doença pode assumir? É possível haver modificação corporal – e até mesmo biológica? Com todas essas e mais algumas questões reunidas em uma só pessoa, nasce Kevin (e todas suas 23 personalidades), personagem principal do filme Fragmentado (Split, M. Night Shyamalan).

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Com uma genial montagem de atrações, Shyamalan constrói um enredo que, ao mesmo tempo que traça um caminho para o espectador, também nos leva a diversas armadilhas. A sensação é de que estamos andando em um labirinto cheio de truques, onde não há sustos grandes mas a tensão é crescente. A construção de cada uma das identidades de Kevin tem um grande papel nisso, e aqui aproveito para elogiar a excelente atuação de James McAvoy, que consegue realmente mudar seu aspecto a cada identidade. É sempre uma boa surpresa quando vemos um ator que só conhecíamos por trabalhos em filmes de super-heróis ou filmes em que ele é apenas um galã passar por um processo tão rico de construção de personagem e realmente entregar ao público a intensidade que o papel demanda.

McAvoy sustena bem o enredo, auxiliado pela jovem Anya Taylor-Joy (Casey), cuja atuação não merece tanto destaque, mas sua personagem trabalha em contraponto a todas as identidades de Kevin. Outra personagem importante é a psiquiatra Dra. Karen Fletcher (Betty Bucley), que na verdade irrita um pouco, por ser daquelas personagens que dão vontade de gritar “querida, você está fazendo uma escolha muito burra”, mas que é extremamente importante para que entendamos o que diabos está acontecendo na mente daquele homem.

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Como em todo filme de Shyamalan, vez ou outra surgem discursos meio bregas e o uso de trilha sonora junto a eles que dão todo um tom piegas, inclusive arruinando uma das cenas mais impactantes de confronto entre A Besta e a personagem Casey. Entretanto, diante de todo o universo claustrofóbico e detalhista construído por Shyamalan, a pieguice não consegue estragar Fragmentado. Para quem não tem grandes problemas com isso, ela pode inclusive passar despercebida.

A ambientação e construção do clima são pensados meticulosamente pelo diretor e pelas equipes de fotografia e arte, e isso é visível ao olhar mais atento. Com pouquíssima iluminação natural, passamos o filme inteiro dentro de ambientes fechados, com grande destaque para a escadaria em espiral do consultório da psiquiatra – como se representasse nossa descida à profundidade da mente daquele homem – e também para a claustrofóbica casa de Kevin, onde as paredes parecem fechar-se ao nosso redor e cada canto é ocupado por detalhes que trazem características das personalidades dele, além de apontarem caminhos que serão importantes no desfecho da trama. Mesmo simples roupas penduradas em cabide e uma mesa de escritório com um velho computador, aqui são cheios de significado. Isso tudo, atrelado à uma iluminação meio amarelada em algumas cenas, acrescenta à atmosfera doentia em que Casey e suas amigas raptadas de repente se veem inseridas.

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Diante de um cenário em que os diretores de suspense e horror parecem cada vez mais preguiçosos, Fragmentado surge como um respiro bom para a safra de filmes de gênero contemporâneos – pensando especialmente no âmbito mainstream, que chega ao grande público – e arrisco dizer que será um dos melhores filmes do ano.

Escala de tocância de terror:

Título original: Split
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy e Betty Buckely
Ano: 2016/17

* Filme visto na cabine de imprensa promovida pelo Espaço Z na sala do Shopping RioMar

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RESENHA: As Faces do Demônio (2020)

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As Faces do Demônio

Pouco se vê do cinema sul-coreano nas salas multiplex do país. E de terror então, nem se fala! “AS FACES DO DEMÔNIO” (Byeonshin 변신), que entraria em cartaz em março deste ano se não fosse a pandemia da COVID-19, estreia agora nos cinemas. A insistência em não lançar o filme em VOD e streaming apesar da quarentena talvez seja sinal de uma abertura maior para produções de gênero da Ásia nas salas comerciais depois que “PARASITA” fez a festa no Oscar.

Este novo longa coreano já começa com os dois pés nas caixas do peito do espectador com um exorcismo pra lá de escatológico que acaba em tragédia, servindo pra nos apresentar os personagens principais: o padre e o demonho. Sequência nada sutil com vômito de sangue, muita ferida e nojeira. A cena é tão surtada que lembra clássicos como “A MORTE DO DEMÔNIO” de Sam Raimi. Mas quando somos apresentados a família que vai sofrer com o malassombro, logo o tom muda radicalmente, entrando num ritmo mais calmo como é de se esperar das produções asiáticas, porém com certa agilidade atípica.

A trama de “AS FACES DO DEMÔNIO” é muito boa, mas infelizmente sua sinopse e trailers entregam muitos spoilers. Eu sei que é difícil, mas se puder, evite-os. A direção de Hong-seon Kim é segura e nos traz uma situação cabulosa atrás da outra. Incrível como o cinema sul-coreano consegue entregar momentos brutos e ternos dentro de uma mesma situação, por mais desconfortável que seja. Pra não estragar, vou evitar descrever o desenrolar dos eventos, mas dá pra dizer que o clima de paranoia, ao bom estilo O ENIGMA DE OUTRO MUNDO do mestre carpinteiro, é muito bem construído e acaba sendo a base que sustenta toda trama. Porém, o diretor perde a mão quando tenta “enfeitar” alguns momentos que poderiam ser mais contidos.

O que chama atenção logo de cara, é a fotografia cristalina e com uma paleta de cor de fortes contrastes entre azul e laranja, típica do cinema mainstream de hollywood predominante, deixando claro que a produção foi feita pra o mercado internacional. Isso é ruim? Seria se fosse mal feito, o que não é o caso. Outra coisa que salta os olhos, é o trabalho de maquiagem artesanal, tanto do possuído como dos cadáveres que podem causar certa repulsa. O que incomoda mesmo é o mal uso de CGI em situações que não precisariam. Não é nem uma questão de purismo, é porque ficaram mal feitas mesmo.

Talvez, o problema aqui é que, para além da estética nitidamente feita pra o público internacional, temos excessos tipicamente hollywoodianos que vão agradar o público em geral, mas podem incomodar os apreciadores do horror asiático mais contido. É sério! Tem hora que a pessoa pergunta pra tela: “PRA QUÊ TUDO ISSO?”. Mas a situação principal concebida é tão intrigante que dá pra relevar esses “exageros ocidentalizados” e ficar tenso do mesmo jeito.

No geral, AS FACES DO DEMÔNIO é um bom filme não só pela narrativa equilibrada e aspectos técnicos, mas pela forma nada convencional de como é tratado o lance de possessão, tema tão mal explorado no cinema de horror nos últimos anos.

NOTA: É bom lembrar que ainda estamos em plena pandemia. Então, se for arriscar, ao menos respeite os protocolos de segurança.

Escala de tocância de terror:

Título original: Byeonshin
Direção: Hong-seon Kim
Roteiro: Kim Hyang-ji
Elenco: Sung-Woo Bae, Dong-il Sung, Young-nam Jang
Origem: Coréia do Sul

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RESENHA: Invasão Zumbi 2 – Península (2020)

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Peninsula

Esqueça o que você viu e gostou em “Invasão Zumbi” (Train to Busan). “Invasão Zumbi 2: Península” (Train to Busan 2: Peninsula) consegue ser tão genérico e pouco original que se não fosse da mesma franquia nem valeria a pena a conferida. Aliás, a ligação entre os dois filmes se dá apenas pela breve introdução em que falam que uma epidemia se espalhou por toda a Coreia do Sul e em pouco tempo o país ficou em lockdown total.

Neste começo até temos uma palhinha do que o filme poderia ser se não tivessem se perdido na megalomania. A cena no caso se passa em um navio de refugiados até o Japão onde um infectado faz mais estrago do que o exército que comanda a embarcação podia imaginar. Mas fica só nisso.

De resto, temos um salto de quatro anos onde mercenários em Hong Kong se especializam em saquear o que restou da Coreia do Sul enviando “mulas” em missões específicas. Aí é quando vemos que “Peninsula” vira um daqueles filmes pós-apocalípticos sem graça com direito a aqueles clichês que já vimos em “Resident Evil“, “Terra dos Mortos” e “The Walking Dead” com refugiados em bunkers contra zumbis que perambulam entre os escombros das cidades.

Se no primeiro filme desta franquia coreana tivemos como um dos pontos cruciais da trama um emocionante desfecho trágico em família, este longa utiliza-se disso como uma muleta para causar empatia com um núcleo de personagens. E falha miseravelmente. A mãe durona que tenta criar suas crianças com o pai/avô está longe de chamar atenção ou emocionar a quem já imagina que o destino deles não será dos mais felizes.

Tirando o aspecto tiro/porrada/bomba nos confrontos com os zumbis, os efeitos digitais deixam muito a desejar. As perseguições com carros atropelando zumbis lembram “Mad Max: Estrada da Fúria” num centro urbano mas com um CGI tão mal construído que parecem extraídos de “Guerra Mundial Z“, onde os mortos-vivos morrem igual a baratas e são vistos rapidamente em frações de segundos.

Considerando o sucesso mundial do primeiro filme, os produtores quiseram agora faturar alto com um orçamento bem maior e algumas concessões criativas transformando o longa em um tipo de filme de ação/aventura que por um acaso tem essas criaturas tão populares no universo do horror. A preocupação em atrair um público maior foi tanta que praticamente eliminaram a carnificina típica de um ataque zumbi para deixar as mortes dos vivos em off-screen.

Diante de tudo isso, não procure ter muitas expectativas ao assistir “Peninsula“. Claro que dependendo do seu grau de exigência, o filme possa ser um bom passatempo. O problema é que não se torna nada mais além disso, tornando-se aquele produto tipicamente enlatado que não precisaria ser revisto depois.

Escala de tocância de terror:

Diretor: Sang-ho Yeon
Roteiro: Sang-ho Yeon, Ryu Yong-jae
Elenco: Dong-won Gang, Jung-hyun Lee, Re Lee
País de origem: Coreia do Sul
Ano de lançamento: 2020

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RESENHA: Mandy (2018)

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Mandy

Confesso que fiquei satisfeito com o cinema de horror no ano de 2018. Já tinha minha listinha de melhores do ano fácil, algo que não acontecia há pelo menos uns dois anos. Mas aí, aos 45 do segundo tempo, me aparece MANDY, um filme de vingança estrelado por Nicolas Cage. Relutei, mas acabei assistindo e pasmem: É MASSA! (mais…)

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